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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Missa da Rosário dos Pretos


Toda terça-feira acontece na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos uma missa em homenagem a Santo Antônio de Categeró. A missa é promovida pela Irmandade dos Homens Pretos e é uma das mais freqüentadas, inclusive por baianos não devotos e por turistas.

A Irmandade dos Homens Pretos, da qual surgiu a Igreja do Rosário dos Pretos, foi criada por negros escravos, durante o período colonial, quando os “homens de cor” eram proibidos de assistirem aos cultos nas igrejas dos brancos. Em 1685 os negros começaram a se reunir em uma Irmandade, com apoio de jesuítas, e em 1704 conseguiram a doação de um terreno, pelo rei de Portugal para que criassem um espaço de culto católico destinado aos negros. Quando finalmente foi construída a Igreja (feita completamente pelos escravos), a intenção era que o padroeiro fosse Santo Antonio de Categeró, mas na época o Santo ainda não havia sido canonizado, e então foi consagrada como patrona a Nossa Senhora do Rosário.

Tanto a Igreja como a Irmandade tornaram-se símbolos de resistência da cultura africana e de manutenção da identidade negra. Na missa realizada às terças pode ser vista a conjugação da liturgia com a tradição afro. O ritual católico adquire ritmo, jeito e forma diferentes. Instrumentos musicais de origem africana, tais como timbal, atabaque e agogô, são utilizados em conjunto com o coral da igreja. Os cânticos entoados passam também a falar sobre a situação do negro e a apropriar palavras de línguas africanas em suas letras.

Próximo ao fim da missa entram devotos carregando cestas de pães (primeiro mulheres e depois homens), recebidas pelo padre e colocadas no altar para que os pães sejam benzidos. Em seguida os pães são distribuídos entre os devotos, ao mesmo tempo em que são passados o incenso, a bênção do padre com água benta e o dízimo. Como afirma o Padre Joseval:

Os pães têm uma ligação com o Santo Antonio, o mesmo Santo celebrado às terças na Igreja de São Francisco, também com o ritual de distribuição de pães. Santo Antonio era muito amigo e solidário com os pobres, então ele distribuía os pães, e tanto lá na Igreja de São Francisco, como na Rosário dos Pretos, a distribuição de pães é um símbolo para mostrar nosso desejo de viver em uma sociedade na qual todos tenham o pão, não só o pão material, mas o pão da cultura, da saúde, da educação, mas, sobretudo o pão do arroz, do feijão e do açúcar que é o básico para a sobrevivência humana.

A iniciativa em celebrar um culto a Santo Antonio de Categeró toda terça-feira e utilizando os mesmos instrumentos que são tocados no candomblé foi do Padre Alfredo, que foi responsável foi do Padre Alfredo, que foi responslmais eja. strumentos musicais de origem africana, tais como timbal, atabaque e agogo pela Igreja do Rosário dos Pretos na década de 1980. Desde então a missa se tornou tradição, sobretudo para moradores do Centro Histórico e arredores, muitos devotos do Santo negro.
.: Foto: Márcio Lima

sábado, 2 de agosto de 2008

Gerônimo


"Só uma pessoa hoje faz um excelente trabalho. O Gerônimo. Apresenta-se todas as terças feiras na escadaria da Igreja do Passo. Faz um excelente trabalho musical, convida os melhores músicos e gente nova. Começou com meia dúzia de gatos pingados assistindo e hoje consegue preencher toda a escadaria, sem auxilio da imprensa, mas pela qualidade do trabalho". (Neguinho do Samba - em entrevista)

O show “O Pagador de Promessa” é organizado por Gerônimo desde 2002. Neste encontro musical, o artista toca suas composições e abre espaço para outros artistas se apresentarem. Atualmente este está sendo o principal projeto do músico que não conta, segundo o mesmo, com patrocínio ou apoio.

Em entrevista Gerônimo afirma que sua vida artística começou no Pelourinho. Além de ter morado no Centro Histórico, em 1979 e depois entre 1981 a 1985, sua música “Eu sou negão” torna-se, em 1987, um manifesto afro dos “guetos” como Pelô e Liberdade. Neste período Caetano também cantava “Eu sou neguinha?”. Segundo Gerônimo, “o que estava em jogo naquele momento era a luta pelo respeito às manifestações negras. E a gente não queria isso só no carnaval não”.

Gerônimo Santana Duarte foi músico do trio elétrico Dodô e Osmar, na década de 1970, tocou e saiu no Afoxé Filhos de Gandhi durante alguns anos e, assim como muitos artistas baianos nos anos 1980, também misturou a musica caribenha com o ijexá do candomblé em suas composições.

Segundo Gerônimo, a movimentação cultural no Pelourinho não tinha tanta força como tem hoje, as manifestações culturais eram espontâneas. Foi com os ensaios dos blocos afros que se começou a organizar uma agenda cultural do Pelourinho, atraindo uma população que antes não freqüentava a área.
A imagem, retirada do site http://www.musicapopular.org/, é do primeiro albúm do artista, lançado em 1983.

sábado, 26 de julho de 2008

Batatinha

Oscar da Penha, mais conhecido como Batatinha, nascido em 1924, foi criado no Centro Histórico, sendo este local referência também de diversos sambas que compôs.

A particularidade da obra deste sambista está em introduzir elementos da cultura local em suas canções. Elementos da capoeira, da culinária tornaram-se propostas estéticas, misturando melodias, danças e receitas da cultura afro. Canções como Olha aí, O Vatapá, Samba e Capoeira, O que é que há, Iaiá no Samba, Receita de Feijoada e Doutor Cobrador, são algumas que retratam o ambiente do Pelourinho.

Batatinha, durante os anos 1950, participou de concursos de composição para o carnaval de Salvador, promovidos pela Rádio Sociedade. Nunca ganhou em tais concursos, mas seus sambas faziam sucesso no carnaval.

Em 1960, ele perdeu mais um desses concursos com a composição Diplomacia cantada por Humberto Reis. O samba, entretanto, entrou na trilha sonora do primeiro filme de Glauber Rocha, “Barravento”. Nesse mesmo ano, Batatinha começa a ser reconhecido pela crítica especializada depois que o sambista carioca Jamelão gravou Jajá da Gamboa.

Esse fato chama a atenção dos intérpretes para o talentoso compositor negro baiano. Maria Bethânia seria o primeiro grande nome da MPB a lhe dar vez, gravando, em 1964, os sambas Diplomacia, Toada da Saudade, Imitação e a Hora da Razão nos shows do Teatro Opinião e no show do álbum "Rosa dos Ventos". Depois, ela gravaria ainda a marcha A História do Circo. Em 1966, o sambista baiano Ederaldo Gentil o convida para musicar a peça teatral "Pedro Mico" de Antônio Callado. Ele compôs ainda o samba Espera que foi gravado pela cantora maranhense Alcione. (www.facom.ufba.br/musicanordestina/batata)

Em 1973, os sambistas Riachão e Batatinha (aos 49 anos) dividem o LP “Samba da Bahia”, gravado no Teatro Vila Velha por iniciativa de Paulo Lima e Edil Pacheco. Neste disco estão os sambas-canção Diplomacia, Ministro do samba, Inventor do Trabalho e o Direito de Sambar. Em 1976, Batatinha grava seu único álbum-solo, “Toalha de Saudade”.

Batatinha viveu na pobreza, mesmo assim o sambista incentivou e promoveu diversos eventos ligados ao gênero, como a "Segunda do Samba" e o "Dia do Samba", realizados no Largo do Santo Antônio e do Terreiro, respectivamente.

Faleceu no ano de 1997, tendo registrado apenas dois álbuns em toda sua trajetória artística. Como obras póstumas foram gravados os álbuns “Diplomacia” e “Batatinha - 50 anos de Samba”.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Mestre Curió


Jânio Martins dos Santos, o Mestre Curió nasceu em 1937, em Candeias, interior da Bahia e desde os seis anos de idade pratica a Capoeira de Angola. Em Salvador deu aulas na Escola de Capoeira Angola Irmãos Gêmeos do Mestre Curió, no Pelourinho, e no Instituto Araketu. Já foi também dirigente da Associação Brasileira de Capoeira Angola.

Na Capoeira de Angola, além da técnica dos golpes e movimentos, é de fundamental importância a transmissão de valores essenciais, como a humildade e o respeito. E é nesse sentido que Mestre Curió vem desenvolvendo um trabalho com crianças da comunidade de Colina do Mar, localizada no Subúrbio Ferroviário. Veja a entrevista do Mestre, publicada na revista Viva Salvador da Fundação Gregório de Mattos, em 2005:

"A capoeira foi criada como dança, como movimento de defesa. Nunca encarei a capoeira como atividade marginal, mas como uma forma de arte. O capoeirista é o artista do nosso povo, do povo negro. E o artista negro ainda sofre uma opressão silenciosa em Salvador. Enfrentei muitas dificuldades desde criança, mas nem por isso me marginalizei. Hoje ajudo a tirar crianças da marginalidade. Quando você pega uma criança, e mostra a ela o valor da cultura negra, ensina uma ocupação, uma arte, o resultado é uma satisfação. Não existe maior recompensa do que quando você tem uma criança infratora, por exemplo, e ajuda a tirá-la do mundo das drogas."
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Esta semana foi realizada em Salvador uma homenagem à capoeira e o lançamento da proposta do registro da Roda de Capoeira no Livro das Formas de Expressão e do Ofício dos Mestres de Capoeira no Livro de Saberes.
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.: Saiba mais no portal www.portalcapoeira.com/

terça-feira, 8 de julho de 2008

A Mulher de Roxo


Uma mulher, vestida de roxo, com roupas longas, mantas compridas, um grande crucifixo e uma Bíblia na mão tornou-se um mito popular do Centro Histórico nos anos 1970. Sua vestimenta, seus acessórios e o modo como ficava nas ruas – sentada, sem conversar ou pedir esmola – suscitava na imaginação dos que a viam o ar de uma mendiga, de uma santa ou de uma louca. A mulher de roxo ficava próximo à loja Slopper, na Rua Chile, local onde as damas da sociedade baiana se reuniam para comprar roupas.

Alguns afirmam que ela se chamava Doralice, outros Florinda. Alguns afirmavam que ela ganhava as roupas da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, outros que ela mesma costurava retalhos roxos e transformava-os em vestidos. Estórias sobre a vida e o por que daquela mulher está nas ruas está presente em livros, contos publicados em jornais e até em vídeo.

Segundo Anísio Félix, a Mulher de Roxo “apareceu nos anos 1960 na zona do Pelourinho, exatamente na casa de número 6 da Rua Gregório de Mattos, em um bordel conhecido como Buraco Doce. Ela era uma mulher muito bonita, cabelos negros longos, vestidos caros e jóias” (FÉLIX, 1995, p. 101). Depois passou a morar nas ruas.

Em alguns momentos a Mulher de Roxo perambulava pelo Centro Histórico vestida de noiva, com buquê, véu e grinalda. Com isso surgiu a lenda de que havia sido abandonada no altar, ou que era uma ex-freira expulsa por causa de um namorado, ou que tinha um filho que a rejeitava, que já havia sido muito rica, que era professora, e por tudo ou nada disso, tinha enlouquecido. Nada se sabe. O que se tem certeza é que em 1993 e por alguns anos a Mulher de Roxo esteve internada no Hospital Santo Antonio, organização das Obras Sociais de Irmã Dulce.
.: Foto retirada de http://blogdogutemberg.blogspot.com/ [neste blog tem também uma matéria sobre a mulher de roxo!]

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Cravinho

O Centro Histórico atualmente é reconhecido pela gastronomia que é possível encontrar em seu espaço, seja típica, exótica, regional ou internacional. Além disso, o Pelourinho guarda a tradição, comum em diversos municípios do interior baiano, de comercializar infusões, que são misturas de ervas curtidas com cachaça. O Cravinho é uma dessas iguarias sendo produzido com cravo e curtido durante duas a três semanas num barril de cachaça, até o momento de retirar o sumo e servi-lo com mel e limão.

Contam alguns moradores que o Cravinho foi inventado junto com a Terça da Bênção. A bebida passa a ser característica desta festa, sendo servida em diversos bares, barracas e por ambulantes. Segundo Clarindo Silva, que como tantos outros reivindica a autoria da infusão, o Cravinho já foi até exportado para Portugal.

Um dos lugares mais conhecidos de venda desta e de outras infusões é o Bar do Cravinho, que fica no Terreiro de Jesus, nº 3.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Jecilda e AMACH


Moradora do Centro Histórico desde 1997, Jecilda Melo acompanhou o processo de desocupação do Centro Histórico, coordenado pela CONDER, a partir de 1991. Em 1997 foi iniciada a sexta etapa (só finalizada em 2004) que previa a restauração de 115 imóveis.

A nova utilização dos imóveis seria, basicamente, para o comércio. A intervenção feita pelo projeto do governo do estado não englobava ações para a memória, as expressões culturais e as atividades desenvolvidas pelos residentes do local. Até mesmo serviços básicos em um bairro residencial, como farmácias e padarias, no Pelourinho são quase inexistentes. Com isso, em 2002 surgiu a AMACH – Associação de Moradores e Amigos do Centro Histórico, que reivindica, entre outras questões, a garantia de permanência dos moradores do CHS e a sua revitalização enquanto espaço social, e não apenas turístico.

Jecilda, líder comunitária e representante da AMACH, tem trabalhado e reivindicado pela permanência da população no Pelourinho. Em entrevista ela afirma:

Nesse processo de revitalização, estamos, com a Associação, tentando fazer um trabalho dentro da comunidade, para que a exclusão social seja banida, e que as vidas voltem a ser revitalizadas, e que nós possamos ficar aqui dentro do Centro Histórico, de uma forma onde a nossa auto-estima (...) Os moradores são aqueles que permanecem onde a cultura pode ser revitalizada todos os dias, independente de movimentos, de governos, a vida humana tem que ser um ponto fundamental em qualquer obra. (...) E nós aqui da AMACH, como moradores, queremos mudar, na briga, no grito, com denúncia, de que existe gente, existe vida, e que nós merecemos respeito. E dentro desse respeito estamos buscando parceiros para mudar a qualidade de vida das pessoas que aqui residem, com qualificação, capacitação profissional, e que eles possam se inserir no mercado de trabalho em qualquer área, não só no Centro Histórico.

A partir de 2003, o projeto de restauração do Pelourinho passou por uma importante modificação, decorrente de uma ação da AMACH junto ao Ministério Público. Na área das obras da sétima etapa, 103 famílias serão realocadas. Elas residirão em edifícios transformados em apartamentos de um, dois e três dormitórios, com áreas de 26 a 55 m2.

A sede da AMACH fica na Rua do Bispo, 24, Edf. Ipe, sala 102 - Pelourinho

.: imagem retirada de http://www.misticismo.blogger.com.br/

domingo, 22 de junho de 2008

Eliza do Carneiro

Na década de 70 um carneiro era presença contínua na rua João de Deus, bairro do Maciel de Baixo. Ele ficava na porta da casa de número 19 (hoje Escola Didá), onde morava Eliza.

Eliza era vigiada pela Delegacia de Jogos e Costumes por venda de maconha, mas durante algum tempo despistou a polícia usando um carneiro. Primeiro Eliza escondia o produto entre as pedras e buracos do calçamento do Centro Histórico e então amarrava o carneiro na porta. O animal era solto quando precisava indicar aos clientes onde estava a maconha, fuçando o local exato. O truque deu certo durante algum tempo até que os policiais descobriram e prenderam Eliza e também o carneiro.

Nos anos 90, segundo relatos, Eliza passou a vender bebida na Terça da Bênção. Do carneiro, no entanto, nunca mais se teve notícia...